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Um matemático contra a mulher mais velha do mundo

Jeanne Calment morreu em 1997 aos 122 anos. Agora, pesquisador russo sugere que foi uma impostora. Uma cidade mobiliza-se em sua defesa

Jeanne Calment afirmava que quando era criança conheceu Vincent van Gogh. Nasceu em 1875, antes da invenção do telefone, do automóvel e do cinematógrafo. Morreu em 1997, aos 122 anos, no mundo da revolução digital. Teve uma existência banal, exceto por um detalhe: ninguém viveu mais anos do que ela na história da humanidade. Agora, chega da Rússia uma teoria segundo a qual ela era uma impostora e nunca chegou a essa idade. Em Arles, a pequena cidade do sul da França onde viveu Calment, alguns cidadãos se mobilizam para defender quem foi e é uma instituição.

“Tudo isso é um pouco abracadabresco”, diz Rémi Venture, diretor da biblioteca de Arles, em alusão a essa teoria.

Venture faz parte de um grupo de arlesianos indignados com as teorias do russo Nikolai Zak, o funcionário de laboratório formado em matemática que, aliado ao gerontologista Valeri Novoselov, começou a semear há alguns meses a dúvida sobre a “decana da humanidade”, como diz a inscrição no túmulo do cemitério de Trinquetaille, em Arles. Zak examinou documentos e fotografias, incluindo os relatórios do gerontologista Michel Allard e do demógrafo Jean-Marie Robine, que nos anos noventa atestaram sua longevidade. A conclusão de Zak: Jeanne Calment não era Jeanne Calment. A mulher falecida em 1997 era, na verdade, sua filha Yvonne, oficialmente nascida em 1898 e falecida em 1935. E quem morreu de verdade em 1935 não foi Yvonne, mas Jeanne. Talvez por motivos financeiros obscuros, Yvonne tenha usurpado a identidade de sua mãe quando esta morreu.

“Não há nenhum argumento sólido [nas teorias de Zak], só insinuações, embora haja muitíssimas, dezenas”, diz por telefone Robine. E acrescenta: “É o oposto não só do procedimento científico, como também judicial. Não é o acúmulo de pequenas dúvidas que acaba influenciando uma decisão da Justiça. É necessária uma prova, um argumento, algo”.

O mistério de Jeanne Calment mistura conspirações extravagantes com velhas histórias de um povoado globalizadas nas redes sociais. Combina a defesa do orgulho local com o medo da ingerência estrangeira, especificamente russa. E tudo isso em meio a uma discussão muito séria sobre os limites da vida humana. Dois fatos, o de que há 22 anos que ninguém tenha vivido mais que Calment e o de que a segunda pessoa mais idosa tenha morrido aos 119 anos, alimentam as teorias, embora o número de supercentenários — pessoas com mais de 110 anos — não pare de aumentar década após década, como ressalta Robine.

No arquivo municipal de Arles, o volume de 1875 contém a ata de nascimento número 110. É a de Jeanne Calment, nascida em 21 de fevereiro daquele ano. Na margem, acrescentou-se com caneta de tinta preta: “Falecida em Arles em 4 de agosto de 1997”.

Zak aborda o caso como uma questão de probabilidade. O que é mais provável? Que alguém chegue aos 122 anos? Ou que tenha havido uma usurpação de identidade e que esta mulher seja a filha? “É mais provável que seja Yvonne”, diz ele, de Moscou. Seus relatórios estão repletos de indícios, desde contradições na memória da mulher até fotos dela em diferentes épocas, nas quais tem, aparentemente, uma fisionomia distinta. Mas nada conclusivo. “Se as pessoas querem ter certeza, devem fazer um teste de DNA”, desafia, embora também não esteja claro se o DNA daria a resposta.

Mas uma mudança de identidade em um lugar onde os Calment, proprietários de um dos principais comércios, eram conhecidos dificilmente poderia ser feita sem chamar a atenção. “Como é que toda a família, os funcionários dos armazéns Calment e os arlesianos da época, teriam aceitado que a filha substituísse a mãe?”, pergunta Venture. “Se tivessem estado em um povoado perdido no sopé dos Alpes ou dos Pirineus, quem sabe? Mas em Arles!”.

Em Arles também se questiona o motivo financeiro: Yvonne teria se passado por Jeanne para economizar os impostos sobre a sucessão. Mas os impostos não eram tão altos a ponto de justificar a fraude. Zak apresenta então outro possível motivo. Talvez Jeanne estivesse fora de Arles por motivo de doença, e Yvonne a tenha substituído assinando papéis perante notários ou seguradoras. Quando Jeanne morreu, era tarde demais para desfazer o engano. Todo soa muito rocambolesco. A resposta do russo: é mais improvável que tenha morrido aos 122 anos.

“Chamam-me de 007 de Arles”, diz Francis Aurran durante um passeio pelo bairro onde viveu Jeanne Calment. Aurran é um dos moradores que, depois que Nikolay Zak publicou suas teses, resolveram se unir para desmontá-las uma por uma. Examinam arquivos, fazem reuniões semanais e têm um grupo no Facebook com o qual se pode colaborar fornecendo evidências. É sexta-feira e Aurran e Colette Barbé, que conheceu Jeanne e também pertence ao grupo de detetives amadores, mostram ao visitante a Arles de Jeanne Calment: a igreja de São Trófimo, a ruazinha onde ficava o cabeleireiro que ela frequentava, os armazéns Calment, onde agora existe um supermercado.

O passeio acaba na casa de Paul Bourouliou, que aos 99 anos se apresenta como “o decano dos arrozeiros da França”. Arles — a pitoresca cidade por onde passaram Van Gogh e Picasso, uma das capitais das touradas na França, juntamente com Nîmes — está às portas dos campos de arroz da região de Camargue. Bourouliou foi contemporâneo de Yvonne e de Jeanne, embora não se recorde de nada sobre a primeira. Mas se lembra bem de Jeanne: “Era amável, mas tinha seu caráter. Até o final fumava um cigarro por dia e bebia uma taça de vinho do Porto”. E ele? Espera chegar aos 122? “Espero viver mais dez anos”, afirma. “Eu me cuido. Tomo seis remédios por dia.

El País

80 tiros contra família acendem o debate sobre racismo e responsabilidade do Exército

Ao lamentar o que chamou de “incidente”, Bolsonaro diz que “responsável vai aparecer”, mas descarta chamar Exército de assassino. “O Exército não matou ninguém não”

A família Santos Rosa ia no domingo passado a uma festa para celebrar a iminente chegada de um bebê quando seu carro foi baleado pelo Exército no Rio, em um subúrbio pobre chamado Guadalupe. Nada menos que 80 tiros foram disparados pelos militares, que mataram o motorista. Era músico e segurança. Chamava-se Evaldo dos Santos Rosa. Tinha 51 anos. Sua esposa, seu filho de sete anos, sua enteada e seu sogro sobreviveram, embora este último tenha ficado ferido. O Exército afirma que confundiu o carro dessa família negra com o de dois criminosos que tinham disparado antes contra os militares. “É um carro de família”, gritaram os moradores na tentativa de alertar para o erro. O caso reacendeu vários debates no Brasil: sobre os riscos da militarização da segurança, a impunidade das forças de segurança (5.000 das 64.000 mortes violentas de 2017 ocorreram em operações policiais), o racismo…

O presidente, que enviou ao Congresso uma proposta de lei que pretende isentar de culpa os policiais que matarem um criminoso “por medo ou surpresa”, evitou se referir ao assunto até sexta-feira, quando foi indagado pela imprensa. “O Exército não matou ninguém não. O Exército é do povo, e não se pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente”, respondeu. “No Exército sempre tem um responsável”, acrescentou, manifestando sua confiança na investigação interna.

Dez dos 12 militares envolvidos no caso foram detidos dias depois por inconsistências entre o que foi declarado inicialmente e os fatos comprovados. São acusados de descumprir as normas para abrir fogo. O assunto está sendo investigado e será julgado pela Justiça Militar, o que preocupa organizações de defesa dos direitos humanos.

Não é o primeiro incidente desse tipo. Em 2015, cinco jovens negros mortos a tiros em seu carro. Naquela ocasião, foram 111 disparos. Também eram negros, também ocorreu em um bairro pobre do Rio, e os agentes eram policiais militares. As estatísticas sobre a violência no Brasil ocultam frequentemente que os brancos vivem muito mais seguros que os negros. É como se vivessem em países distintos. O Atlas da Violência de 2018 indica que “a desigualdade racial no Brasil é cristalina no que se refere à violência letal e às políticas de segurança”. Um exemplo: enquanto o total de negros assassinados aumentou 23%, o de brancos caiu quase 7% no ano passado.

E sua visão da polícia também é diferente. Entre os jovens negros de baixa renda, cerca de 60% têm medo da polícia, enquanto 40% confiam nela, segundo uma pesquisa do Datafolha. A pesquisa mostra uma imagem inversa entre idosos brancos de alta renda.

EP

Wikileaks, o amor usado e abandonado por Trump

Presidente toma distância da plataforma de Julian Assange, a quem chegou a dar mais crédito do que aos serviços de inteligência dos EUA

Donald Trump.CARLOS BARRIA / REUTERS

A plataforma Wikileaks nasceu em 2006, mas só se tornou um fenômeno global em 2010, quando realizou o maior vazamento de documentos secretos da história dos Estados Unidos. Tratava-se de um arsenal de mensagens militares e diplomáticas que revelaram misérias sobre as guerras no Afeganistão e no Iraque, além de todo tipo de detalhes inconvenientes sobre o que as autoridades americanas pensavam ou escreviam de outros líderes internacionais, desde o interesse pela saúde mental de Cristina Kirchner até a peculiar guarda feminina de Kadafi.

Com esses ingredientes, seria difícil imaginar que um candidato à presidência dos Estados Unidos se atrevesse a dizer qualquer palavra em defesa do site de Julian Assange. Mas quando uma criatura política como Donald Trump entra em cena, tudo é possível, e durante aquele 2016 em que lutava para chegar à Casa Branca, o magnata nova-iorquino não poupou elogios: “Wikileaks, amo o Wikileaks”, disse ele em um comício na Pensilvânia. “O Wikileaks é como um tesouro escondido”, afirmou em Michigan. “Cara, adoro ler o Wikileaks”, declarou em Ohio.

A plataforma tinha publicado uma tonelada de e-mails pirateados do Partido Democrata, que deixaram Hillary Clinton e seu partido em maus lençóis — um caso que os serviços de inteligência identificariam mais tarde como uma das grandes ramificações da alegada trama russa, a interferência de Moscou na campanha eleitoral para favorecer a vitória do republicano. E Trump se mostrava exultante. Mas na quinta-feira, quando a polícia britânica prendeu Julian Assange na Embaixada equatoriana em Londres, depois do pedido de extradição feito pelos Estados Unidos, o hoje presidente parecia outro. “Não sei nada sobre o Wikileaks”, respondeu à imprensa.

Já se foi a época em que Trump brincou pedindo que Vladimir Putin roubasse os e-mails de Clinton — “Rússia, se vocês estão nos ouvindo, espero que consigam encontrar os 30.000 e-mails de Hillary Clinton” —, ou quando dava mais crédito a Assange do que aos próprios serviços de inteligência americanos. Isso ocorreu em janeiro de 2017, já como presidente eleito, ao pôr em dúvida a acusação das agências de que o Kremlin era o responsável pelos vazamentos, algo que o Wikileaks negava. “Julian Assange diz que ‘um garoto de 14 anos pode ter hackeado [John] Podesta [ex-chefe de campanha do Clinton]’. Por que o Partido Democrata teve tão pouco cuidado? Além disso, ele afirmou que os russos não lhe deram a informação!”, tuitou Trump.

A simpatia pelo universo Wikileaks ia além dos disparates que o nova-iorquino costumava dizer no Twitter no calor da campanha. Seu filho mais velho, Donald Jr., trocou mensagens privadas com a plataforma em plena campanha. Naquela correspondência, que veio à tona em novembro de 2017 na revista The Atlantic como parte da investigação, pelo Congresso, da trama russa, o site de Assange incentivava o jovem a divulgar os vazamentos e o aconselhava sobre estratégias. Além disso, um dos assessores de Trump, Roger Stone, foi uma das peças-chave da investigação da trama por seus contatos com a plataforma.

Esse tipo de aproximação alimentou as suspeitas sobre a possível conivência de Trump ou de seu círculo com o Kremlin na interferência eleitoral. O relatório final do promotor especial Robert S. Mueller, encarregado do caso, isentou o presidente, que agora se distancia o máximo que pode do Wikileaks. Enquanto eram dados os últimos passos da investigação de Mueller, um grande júri estava investigando Assange. A Justiça americana o acusa de conspiração criminosa para se infiltrar em sistemas do Governo e de ter ajudado a então soldado Chelsea Manning a hackear computadores com informação secreta do Governo dos EUA em 2010. Assange poderia ser condenado a até cinco anos de prisão, mas seus advogados temem que os promotores ampliem as acusações e peçam uma sentença de décadas de cadeia. O grande vazador volta a ser um inimigo dos Estados Unidos.

Fonte: El País

 

Olavo de Carvalho, o onipresente oráculo do bolsonarismo

Ideólogo de Bolsonaro mantém sua influência no Governo apesar dos desastrosos primeiros meses de seus indicados no Ministério da Educação

O ideólogo da direita Olavo de Carvalho, em Washington, na ocasião do encontro com o presidente brasileiro, em 16 de março.JOSHUA ROBERTS / REUTERS

O brasileiro Olavo de Carvalho, 71 anos, é alguém que encarna magnificamente esta era na qual ideias e sujeitos há pouco tempo marginais conseguiram colocar-se no centro do debate público. E, em seu caso, ter influência. Este autodidata que vive na Virginia (EUA) há anos e dá aulas de Filosofia pela Internet lidera à distância uma dos quatro grupos que apoiam diariamente o Governo de Jair Bolsonaro. É o pai do setor mais ideologizado do Gabinete, aquele que está na guerra contra o globalismo, o marxismo cultural, o feminismo… Dois ministros são discípulos dele. As demais turmas são os militares, os econômico-pragmáticos e os evangélicos.

Olavo é a grande referência ideológica do clã Bolsonaro, o inspirador da revolução direitista conservadora empreendida para apagar qualquer sinal de esquerdismo no Brasil. Tanto que em sua recente visita oficial a Washington o presidente se sentou à sua direita em um jantar realizado na residência do embaixador. À sua esquerda, estava o ideólogo nacional-populista Steve Bannon.

Na véspera daquele jantar, Carvalho declarou: “Eu adoro esse cara, Bolsonaro. Mas está rodeado de traidores, não confio em praticamente em ninguém do Governo exceto nele”. Detesta o vice-presidente, general Hamilton Mourão, ataca-o publicamente com frequência e até já o insultou; acusa-o de ter mudado de lado depois de assumir o cargo para se tornar “pró-aborto”, “pró-desarmamento” e pró-Nicolás Maduro.

O Gabinete formado por Bolsonaro é um reflexo dos diversos setores que o guindaram ao poder. Todos unidos pela rejeição ao Partido dos Trabalhadores e a Lula, hoje preso, mas com frequência seus interesses são divergentes, o que dificulta a convivência. Os frequentes choques, que também não se esforçam para esconder, e a aparente incapacidade do presidente de colocar ordem na casa são o principal lastro deste Governo.

Para a professora Tassia Cruz, da Fundação Getulio Vargas, “o desgoverno ao qual assistimos no Ministério da Educação é o principal fracasso (desses primeiros 100 dias). Toda a carga ideológica que permeou a campanha foi projetada no coração das políticas públicas”. O ministro original, Ricardo Vélez, sugerido com o das Relações Exteriores pelo guru antimarxista, foi destituído na segunda-feira passada. Culminava assim a guerra aberta entre olavistas e militares pela política educacional na qual Vélez não colocou em andamento projeto algum de destaque, demitiu uns quinze diretores e propôs revisar a narrativa do golpe de Estado de 1964 ou pedir às escolas que gravassem o alunado cantando o hino e enviassem seus vídeos ao ministério. O novo titular, Abraham Weintraub, é outro olavista. Carvalho elogiou a nomeação com um tuíte no qual destacava: “Não me deve nada (…). Ele conhece minhas ideias melhor do que seu antecessor, o que não significa que eu tenha moldado sua mente”. Essas ideias são um combate aberto ao “marxismo cultural” que supostamente impregna o establishment acadêmico, a imprensa, a esquerda em geral… Seus cursos online de Filosofia custam 60 reais por mês.

Detesta o vice-presidente Hamilton Mourão, ataca-o publicamente com frequência e até já o insultou
Mourão é considerado uma força moderadora dentro de um Gabinete que inclui oito antigos militares e um número recorde de fardados em escalões mais baixos, incluindo o porta-voz e o encarregado das redes sociais. É atribuída a sua influência o comedimento em relação à Venezuela – apesar de Bolsonaro não ter chegado a descartar abertamente uma intervenção – e a decisão de levar a Jerusalém um escritório comercial e não a Embaixada, como Bolsonaro prometeu em campanha para entusiasmo dos olavistas e das Igrejas evangélicas.
Nesta última decisão pesou também a influência do setor econômico-pragmático do Governo, que não quer colocar em risco as grandes exportações de carne para os países árabes em troca de agradar Israel. As novas alianças implicam dar às costas a outros amigos e isso pode ter graves consequências econômicas. Por isso Bolsonaro anunciou que a partir de julho fará uma excursão por vários países árabes e antes do fim do ano visitará a China, que há uma década substituiu os Estados Unidos como o principal parceiro comercial. As agendas públicas de Bolsonaro e Mourão, analisadas pelo EL PAÍS, revelam que nesses três meses o primeiro se concentrou em reunir-se com sua equipe e com líderes parlamentares, enquanto o segundo teve como principais interlocutores empresários, representantes da sociedade civil, diplomatas e jornalistas.
Fonte: El País

Desabamento mata ao menos 3 no Rio

Pelo menos três pessoas morreram e outras dez ficaram feridas após o desabamento de dois edifícios residenciais na comunidade da Muzema, na zona oeste do Rio de Janeiro, na manhã desta sexta-feira (12). Segundo a prefeitura do Rio, as construções eram irregulares e tiveram as obras interditadas em novembro de 2018.

Corpo de Bombeiros trabalha nos escombros com uma lista de 17 nomes José Lucena / Estadão Conteúdo / 12.04.2019

O Corpo de Bombeiros trabalha nos escombros com uma lista de 17 nomes de pessoas que estariam desaparecidas. Eles isolaram a área porque outros prédios do entorno estariam em risco iminente de desmoronamento. Cães farejadores ajudam nas buscas.

Gentili é condenado a indenizar Marcelo Freixo

Danilo Gentili perdeu outra ação contra um político, agora no Rio de Janeiro. Segundo o Poder Judiciário do Rio de Janeiro, a 26ª Câmara Cível condenou o humorista a indenizar em R$ 20 mil o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL – RJ) por danos morais, além de custear honorários do advogado do político.

A decisão saiu dois dias após o apresentador do The Noite, do SBT, ser condenado a seis meses de prisão em regime semiaberto pela 5ª Vara Criminal Federal de São Paulo por ofensas contra a também deputada federal Maria do Rosário (PT – RS).

Cem dias sob o domínio dos perversos

A vida no Brasil de Bolsonaro: um Governo que faz oposição a si mesmo como estratégia para se manter no poder, sequestra o debate nacional, transforma um país inteiro em refém e estimula a matança dos mais frágeis.

A violência de agentes das forças de segurança do Estado nos primeiros 100 dias do ano, como a execução de 11 suspeitos em Guararema (SP), pela polícia militar, e os 80 tiros disparados contra o carro de uma família por militares no Rio de Janeiro, pode apontar a ampliação do que já era evidente no Brasil: a licença para matar. Mais frágeis entre os frágeis, os ataques a moradores de rua podem demonstrar uma sociedade adoecida pelo ódio: em apenas três meses e 10 dias, pelo menos oito mendigos foram queimados vivos no Brasil. Bolsonaro não puxou o gatilho nem ateou fogo, mas é legítimo afirmar que um Governo que estimula a guerra entre brasileiros, elogia policiais que matam suspeitos e promove o armamento da população tem responsabilidade sobre a violência.

Este artigo é dividido em três partes: perversão, barbárie e resistência.

1) A Perversão

Tanto a oposição quanto a imprensa quanto a sociedade civil organizada e até mesmo grande parte da população estão vivendo no ritmo dos espasmos calculados que o bolsonarismo injeta nos dias. É por essa razão que me refiro à “perversão” no título deste artigo. Estamos sob o jugo de perversos, que corrompem o poder que receberam pelo voto para impedir o exercício da democracia.

Como tem a máquina do Estado nas mãos, podem controlar a pauta. Não só a do país, mas também o tema das conversas cotidianas dos brasileiros, no horário do almoço ou junto à máquina do café ou mesmo na mesa do bar. O que Bolsonaro aprontará hoje? O que os bolsojuniores dirão nas redes sociais? Qual será o novo delírio do bolsochanceler? Quem o bolsoguru vai detonar dessa vez? Qual será a bolsopolêmica do dia? Essa tem sido a agenda do país.

Mas essa é apenas parte da operação. Para ela, Bolsonaro teve como mentor seu ídolo Donald Trump. O bolsonarismo, porém, vai muito mais longe. Ele simula também a oposição. Assim, a sociedade compra a falsa premissa de que há uma disputa. A disputa, porém, não é real. Toda a disputa está sendo neutralizada. Quando chamo Bolsonaro de “antipresidente”, não estou fazendo uma graça. Ser antipresidente é conceito.

Quem é o principal opositor da reforma da Previdência do ultraliberal Paulo Guedes, ministro da Economia? Não é o PT ou o PSOL ou a CUT ou associações de aposentados. O principal crítico da reforma do “superministro” é aquele que nomeou o superministro exatamente para fazer a reforma da Previdência. O principal crítico é Bolsonaro, o antipresidente.

Como quando diz que, “no fundo, eu não gostaria de fazer a reforma da Previdência”. Ou quando diz que a proposta de capitalização da Previdência “não é essencial” nesse momento. Ou quando afirmou que poderia diminuir a idade mínima para mulheres se aposentarem. É Bolsonaro o maior boicotador da reforma do seu próprio Governo.

Enquanto ele é ao mesmo tempo situação e oposição, não sabemos qual é a reforma que a oposição real propõe para o lugar desta que foi levada ao Congresso. Não há crítica real nem projeto alternativo com ressonância no debate público. E, se não há, é preciso perceber que, então, não há oposição de fato. Quem ouve falar da oposição? Alguém conhece as ideias da oposição, caso elas existam? Quais são os debates do país que não sejam os colocados pelo próprio Bolsonaro e sua corte em doses diárias calculadas?

É pelo mesmo mecanismo que o bolsonarismo controla as oposições internas do Governo. Os exemplos são constantes e numerosos. Mas o uso mais impressionante foi a recente ofensiva contra a memória da ditadura militar. Bolsonaro mandou seu porta-voz, justamente um general, dizer que ele havia ordenado que o golpe de 1964, que completou 55 anos em 31 de março, recebesse as “comemorações devidas” pelas Forças Armadas. Era ordem de Bolsonaro, mas quem estava dizendo era um general da ativa, o que potencializa a imagem que interessa a Bolsonaro infiltrar na cabeça dos brasileiros.

Aparentemente, Bolsonaro estava, mais uma vez, enaltecendo os militares e dando seguimento ao seu compromisso de fraudar a história, apagando os crimes do regime de exceção. Na prática, porém, Bolsonaro deu também um golpe na ala militar do seu próprio Governo. Como é notório e escrevi aqui já em janeiro, os militares estão assumindo – e se esforçando para assumir – a posição de adultos da sala ou controladores do caos criado por Bolsonaro e sua corte barulhenta. Estão assumindo a imagem de equilíbrio num Governo de desequilibrados.

Esse papel é bem calculado. A desenvoltura do vice general Hamilton Mourão, porém, tem incomodado a bolsomonarquia. O que pode então ser mais efetivo do que, num momento em que mesmo pessoas da esquerda têm se deixado seduzir pelo “equilíbrio” e “carisma” de Mourão, lembrar ao país que a ditadura dos generais sequestrou, torturou e assassinou civis?

Bolsonaro promoveu a memória dos crimes da ditadura pelo avesso, negando-os e elogiando-os. Poucas vezes a violência do regime autoritário foi tão lembrada e descrita quanto neste 31 de março. Foi Bolsonaro quem menos deixou esquecer os mais de 400 opositores mortos e 8 mil indígenas assassinados, assim como as dezenas de milhares de civis torturados. Para manter os generais no cabresto, Bolsonaro os jogou na fogueira da opinião pública fingindo que os defendia.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro lembrou aos generais que são ele e sua corte aparentemente tresloucada quem faz o serviço sujo de enaltecer torturadores e impedir que pleitos como o da revisão da lei de anistia, que até hoje impediu os agentes do Estado de serem julgados pelos crimes cometidos durante a ditadura, vão adiante. Como berrou o guru do bolsonarismo, o escritor Olavo de Carvalho, em um de seus ataques recentes contra o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo da presidência: “Sem mim, Santos Cruz, você estaria levando cusparadas na porta do Clube Militar e baixando a cabeça como tantos de seus colegas de farda”.

A ditadura deixou marcas tão fundas na sociedade brasileira que mesmo perseguidos pelo regime se referem a generais com um respeito temeroso. Nenhum “esquerdista” ousou dizer publicamente o que Olavo de Carvalho disse, ao chamar os generais de “bando de cagões”. Mais uma vez, o ataque, a réplica e a tréplica se passaram dentro do próprio Governo, enquanto a sociedade se mobilizava para impedir “as comemorações devidas”.

A exaltação do golpe militar de 1964 serviu também como balão de ensaio para testar a capacidade das instituições de fazer a lei valer. Mais uma vez, Bolsonaro pôde constatar o quanto as instituições brasileiras são fracas. E alguns de seus personagens, particularmente no judiciário, tremendamente covardes. Não fosse a Defensoria Pública da União, que entrou com uma ação na justiça para impedir as comemorações de crimes contra a humanidade, nada além de “recomendações” para que o Governo não celebrasse o sequestro, a tortura e o assassinato de brasileiros. Patético.

Outro exemplo é a demissão do ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez para colocar em seu lugar outro que pode ser ainda pior. Bolsonaro fritou o ministro que ele mesmo nomeou e o demitiu pelo Twitter. Ao fazê-lo, agiu como se outra pessoa o tivesse nomeado – e não ele mesmo. Chamou-o de “pessoa simpática, amável e competente”, mas sem capacidade de “gestão” e sem “expertise”. Mas quem foi o gestor que nomeou alguém sem capacidade de gestão e expertise para um ministério estratégico para o país? E como classificar um gestor que faz isso? Mais uma vez, Bolsonaro age como se estivesse fora e dentro ao mesmo tempo, fosse governo e opositor do governo simultaneamente.

Mesmo as minorias que promoveram alguns dos melhores exemplos de ativismo dos últimos anos passaram a assistir à disputa do Governo contra o Governo como espectadores passivos. Quem lutou pela ampliação dos instrumentos da democracia parece estar se iludindo que berrar nas redes sociais, também dominadas pelo bolsonarismo, é algum tipo de ação. A participação democrática nunca esteve tão nula.

A estratégia bem sucedida, neste caso, é a falsa disputa da “nova política” contra a “velha política”. O bate-boca entre Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), é só rebaixamento da política, de qualquer política. Se a oposição ao Governo é Maia, parlamentar de um partido fisiológico de direita, qual é a oposição? Bolsonaro e Maia estão no mesmo campo ideológico. Não há nenhuma disputa de fundo estrutural entre os dois, seja sobre a Previdência ou sobre qualquer outro assunto de interesse do país.

O mecanismo se reproduz também na imprensa. Aparentemente, parte da mídia é crítica ao Governo Bolsonaro. E, sob certo aspecto, é comprovadamente crítica. Mas a qual Governo Bolsonaro? Se Bolsonaro é mostrado como o irresponsável que é, o contraponto de responsabilidade, especialmente na economia, seriam outros núcleos de seu próprio Governo, conforme apresentado por parte da imprensa. Quando o insensato Bolsonaro atrapalha Guedes, o projeto neoliberal ganha um verniz de sensatez que jamais teria de outro modo.

Diante do populismo de extrema direita de Bolsonaro e seus companheiros de outros países, o neoliberalismo é apresentado como a melhor saída para a crise que ele mesmo criou. Mas Bolsonaro e seus semelhantes são os produtos mais recentes do neoliberalismo – e não algo fora dele. Onde então está o contraditório de fato? Qual é o espaço para um outro projeto de Brasil? Cadê as alternativas reais? Quais são as ideias? Onde elas estão sendo discutidas com ressonância, já que sem ressonância não adianta?

A imprensa ao mesmo tempo reflete e alimenta a paralisia da sociedade. Os cem dias mostraram que o Governo Bolsonaro é ainda pior do que o fenômeno Bolsonaro. Bolsonaro não se tornará presidente, “não vestirá a liturgia do cargo”, como esperam alguns. Não porque é incapaz, mas porque não quer. Bolsonaro sabe que só se mantém no poder como antipresidente, como enfatizei em artigo anterior. Bolsonaro só pode manter o poder mantendo a guerra ativa.

Recente pesquisa do Datafolha mostrou que ele é o presidente pior avaliado num início de governo desde a redemocratização do país. Mas Bolsonaro aposta que é suficiente manter a popularidade entre suas milícias e age para elas. Bolsonaro está dentro, mas ao mesmo tempo está fora, governando com sua corte e seus súditos. Governando contra o Governo. Essa é a única estratégia disponível para Bolsonaro continuar sendo Bolsonaro.

A oposição, assim como a maioria da população, foi condenada à reação, o que bloqueia qualquer possibilidade de ação. Se alguém sempre jogar a bola na sua direção, você sempre terá que rebater a bola. E quando pegar esta e liberar as mãos, outra bola é jogada. Assim, você vai estar sempre de mãos ocupadas, tentando não ser atingido. Todo o seu tempo e energia são gastos em rebater as bolas que jogam em você. Deste modo, você não consegue tomar nenhuma decisão ou fazer qualquer outro movimento. Também não consegue planejar sua vida ou construir um projeto. É uma comparação tosca, mas fácil de entender. É assim que o governo Bolsonaro tem usado o poder para controlar o conteúdo dos dias e impedir a disputa política legítima das ideias e projetos.

2) A Barbárie

Mesmo a parcela mais organizada das minorias que tanto Bolsonaro atacou na eleição parece estar em transe, sem saber como agir diante dessa operação perversa do poder. Ao reagir, tem adotado o mesmo discurso daqueles que as oprimem, o que amplia a vitória do bolsonarismo.

Um exemplo. O vídeo divulgado por Bolsonaro no Carnaval, mostrando uma cena de “golden shower”, foi definido como “pornográfico” por muitos dos que se opõem a Bolsonaro. Mas este é o conceito de pornografia da turma do antipresidente. Adotá-lo é comungar de uma visão preconceituosa e moralista da sexualidade. É questionável que dois homens façam sexo no espaço público e este é um ponto importante. Não deveriam e não poderiam. Mas não é questionável o ato de duas pessoas adultas fazerem sexo consentido da forma que bem entenderem, inclusive um urinando no outro. O ato pornográfico é o de Bolsonaro, oficialmente presidente da República, divulgar o vídeo nas redes sociais. É dele a obscenidade. A pornografia não está na cena, mas no ato de divulgar a cena pelas redes sociais. Diferenciar uma coisa da outra é fundamental.

Outro exemplo. Quando a oposição tenta desqualificar o deputado federal Alexandre Frota (PSL) porque ele é ator pornô está apenas se igualando ao adversário. Qual é o problema de ser ator pornô? Só os moralistas do pseudoevangelismo desqualificam pessoas por terem trabalhos ligados ao sexo. Alexandre Frota deve ser criticado pelas suas péssimas ideias e projetos para o país, não porque fazia sexo em filmes para ganhar a vida. Criticá-lo por isso é jogar no campo do bolsonarismo e é também ser intelectualmente desonesto. Cada vez mais parte da esquerda tem se deixado contaminar, como se fosse possível deslegitimar o adversário usando o mesmo discurso de ódio.

Na mesma linha, o problema do ministro da Justiça, Sergio Moro, não é o fato de ele falar “conge” em vez de “cônjuge”, como fez por duas vezes durante audiência pública no Senado. Ridicularizar os erros das pessoas na forma de falar é prática das piores elites, aquelas que se mantêm como elite também porque detêm o monopólio da linguagem. Poderia se esperar que Moro falasse a chamada “norma culta da língua portuguesa” de forma correta, já que teve educação formal tradicional. Mas a disputa política deve se dar no campo das ideias e projetos.

O problema de Moro é ter, como juiz, interferido no resultado da eleição. E, em seguida, ser ministro daquele que suas ações como funcionário público ajudaram a eleger. O problema de Moro é criar um pacote anticrime que, na prática, pode autorizar os policiais a cometerem crimes. Pela proposta do ministro da Justiça, os policiais podem invocar “legítima defesa” ao matar um suspeito, alegando “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Neste caso, a pena pode ser reduzida pela metade ou mesmo anulada. O problema de Moro que interessa ao país não é, definitivamente, usar “conge” em vez de “cônjuge”.

Compreender como o discurso de ódio vai se imiscuindo na mente de quem acredita estar se contrapondo ao ódio é eticamente obrigatório. Se o governo de Bolsonaro é também oposição e crítica ao próprio Governo, isso não significa que ele não tenha um projeto e que este projeto não esteja se impondo rapidamente ao país. Tem e está. Somos hoje um país muito pior do que fomos. E somos hoje um povo muito pior do que fomos. Parte do objetivo dos violentos e dos odiadores é normalizar a violência e o ódio pela repetição. O bolsonarismo tem conseguido realizar esse projeto com uma velocidade espantosa.

Apenas em 2019 ( e escrevo na primeira quinzena de abril), pelo menos oito – OITO – moradores de rua foram queimados vivos no Brasil. Este é apenas um levantamento feito com base no noticiário, pode ser mais. Em 1 de janeiro, um morador de rua de 27 anos foi incendiado quando dormia em Ponta Grossa, no Paraná. Alguém passou, jogou álcool e colocou fogo no seu corpo. Teve mais de 40% do corpo queimado. Em 21 de janeiro, um morador de rua foi encontrado incendiado e morto numa praça de Curitiba, capital paranaense. Quatro dias depois, em 25 de janeiro, José Alves de Mello, 56 anos, também morador de rua, foi agredido e queimado num imóvel abandonado da Grande Curitiba. Em 27 de fevereiro, uma moradora de rua foi queimada quando dormia embaixo de um viaduto, no Recife, capital do estado de Pernambuco. Ela sobreviveu. Em 17 de março, José Augusto Cordeiro da Silva, 27 anos, acordou já em chamas embaixo de uma marquise na cidade de Arapiraca, no estado de Alagoas. Morreu no hospital. Em 1 de abril, um homem aparentando 30 e poucos anos morreu carbonizado próximo à escada rolante de uma estação de trem em Santo André, no ABC Paulista. O caso foi registrado como “morte suspeita”. Em 3 de abril, Roberto Pedro da Silva, 46 anos, foi incendiado quando dormia numa obra abandonada em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul. Um homem teria jogado combustível e ateado fogo em seu corpo. Em 7 de abril, um morador de rua aparentando 30 anos foi agredido a pedradas e incendiado no interior de um ginásio de esportes em Águas Lindas de Goiás, no entorno do Distrito Federal.

Se fôssemos gente decente de um país decente, pararíamos exigindo o fim da barbárie.

Em 4 de abril, policiais militares mataram 11 dos 25 suspeitos de assaltar bancos no município de Guararema, na Grande São Paulo. O governador do estado, João Doria (PSDB), afirmou que vai condecorá-los. Até bem pouco tempo atrás, um governador não ousaria dar medalhas a policiais que assassinaram suspeitos. Em nenhum país democrático do mundo matar suspeitos é considerado um bom desempenho policial. Pelo contrário.

No Brasil, que oficialmente não tem pena de morte, o governador do maior estado do país elogia e premia a execução de suspeitos por agentes da lei. Em março, a polícia paulista matou 64 pessoas. Bem mais do que em 2018, no mesmo mês, quando houve 43 homicídios por parte de policiais, o que já era uma enormidade. Autorizada pelas autoridades, a polícia brasileira, conhecida por ser uma das que mais mata no mundo, mostra que neste ano já começou a matar mais.

Se fôssemos um país decente de gente decente, pararíamos diante da barbárie cometida por agentes da lei com autorização e estímulo de autoridades que não foram eleitas para promover a quebra do Estado de Direito.

No último domingo, 7 de abril, militares dispararam 80 tiros – OITENTA – contra o carro de Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, um músico negro que levava a sua família a um chá de bebê em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro. Ele morreu fuzilado. Seu filho de 7 anos viu o pai sangrar e soldados do Exército de seu país rirem do desespero da mãe. Graças a uma lei sancionada por Michel Temer, em 2017, os militares que atacaram uma família civil serão julgados não pela justiça comum, mas pela militar, que comprovadamente é corporativa e conivente com os crimes.

Se fôssemos um país decente de gente decente pararíamos diante da barbárie e exigiríamos justiça.

3) A Resistência

O Brasil se espanta muito menos do que há bem pouco tempo atrás com o cotidiano de exceção. É justamente assim que o totalitarismo se instala. Pelas frestas do que se chama normalidade. Pelas mentes no senso comum e nas horas do dia. Depois, é só oficializar. O Brasil já vive sob o horror da exceção. A falsificação da realidade, a corrupção das palavras e a perversão dos conceitos são parte da violência que se instalou no Brasil. São parte do método. Essa violência subjetiva tem resultados bem objetivos – e multiplica, como os números já começam a apontar, a violência contra os corpos. Não quaisquer corpos, mas os corpos dos mais frágeis.

O desafio – urgente, porque já não há mais tempo – é resgatar o que resta de democracia no Brasil. É pela pressão popular que as instituições podem se fortalecer ao serem lembradas que não servem aos donos do poder nem aos interesses de seus membros, mas à sociedade e à Constituição. É pela pressão por outros diálogos e outras ideias e outras realidades que ainda respiram no país que a imprensa pode abrir espaço para o pluralismo real. É pela pressão por justiça e pelo levante contra a barbárie que podemos salvar nossa própria alma adoecida pelos dias.

O resgate da democracia pelo que ainda resta dela, aqui e ali, não será tarefa de outros. Como já escrevi antes, só há nós mesmos. Nós, os que resistimos a entregar o Brasil para os perversos que hoje o governam – e o governam também pelo controle dos espasmos diários que impõem aos brasileiros.

Eu gostaria de dizer: “Acordem!”. Mas não é que os brasileiros estejam dormindo. Parece mais uma paralisia, a paralisia do refém, daquele que vive o horror de estar entregue ao controle do perverso. Não é mais desespero, é pavor. Precisamos encontrar caminhos para romper o controle, sair do jugo dos perversos, tirar a pauta dos dias de suas mãos.

Como?

Essa resposta ninguém vai construir sozinho. A minha é que precisamos criar o “comum”. O que aqui chamo de comum é o que nos mantêm amalgamados, o que permite que, ao conversarmos, partimos do consenso de que a cadeira é cadeira e a laranja é laranja e que nenhum de nós dois sente na laranja e coma a cadeira. Os perversos corromperam a palavra – e têm repetido que a cadeira é laranja. Só por isso podem dizer que o Brasil está ameaçado pelo “comunismo” ou que o nazismo é de “esquerda” ou que o aquecimento global é um “complô marxista”. Essas três afirmações, apenas como exemplo, não têm lastro na realidade. É o mesmo que dizer que laranja é cadeira. Apenas que menos gente tem clareza do que foi o nazismo e do que é o comunismo e do que é o aquecimento global, tornando mais fácil embrulhar as coisas.

Eles repetem e repetem, assim como tantas outras corrupções da realidade, porque corromperam o voto que receberam ao usar a estrutura do Estado para produzir mentiras. É assim que os perversos enlouquecem uma população inteira – e a submetem: dizendo que laranja é cadeira dia após dia. As palavras deixam de significar, a linguagem é rompida e corrompida e a conversa se torna impossível. Como você vai falar com alguém sobre laranjas se o outro acha que laranja é cadeira? É isso que hoje acontece no Brasil, e este ataque é desferido diariamente pelas redes sociais dominadas pelo bolsonarismo.

Precisamos voltar a encarnar as palavras. Ou enlouqueceremos todos. A criação do comum começa pela linguagem. Precisamos também criar comunidade. Não comunidade de internautas que ficam gritando cada um atrás da sua tela. Mas comunidade real, que exige presença, exige corpo, exige debate, exige negociação, exige compartilhamento real. Não há nada que os regimes de exceção temam mais do que pessoas que se juntam para fazer coisas juntas. É por isso que Bolsonaro tanto critica o ativismo e os ativistas – e já deu vários passos na direção da criminalização do ativismo e dos ativistas.

O ativista é aquele que deixa o conforto do seu umbigo e do seu entorno protegido para exercer a solidariedade. Governos como o de Bolsonaro agem para que cada um veja o outro como inimigo, e por isso temem o ativismo. Os bolsonaristas se alimentam da guerra porque a guerra separa as pessoas e faz com que elas não tenham tempo para criar futuro. A solidariedade é um gesto temido pelos autoritários. Por que você não está em casa lustrando o seu umbigo, é o que gostariam de perguntar? Ao corromper as palavras, é também esse o objetivo. Condenar cada um à prisão do seu silêncio (ou do seu eco), incapaz de alcançar o outro pela falta de uma linguagem comum.

Assim, tentam eliminar a solidariedade à bala. Ou exilá-la. Mandá-la para fora do país que privatizaram para si. Bolsonaro disse isso com todas as letras. É o que tem feito com os movimentos sociais e suas lideranças. É também por isso que é necessário uma polícia com autorização para matar, como quer Bolsonaro, e como obedece Sergio Moro.

A polícia, cada vez mais, se torna também ela uma milícia privada dos donos do poder. Deixa de exercer seu dever constitucional de proteger a população para exercer a guerra contra a população. Durante a intervenção federal no Rio, policiais civis e militares mataram 1.543 pessoas. Em 2018, um em cada quatro homicídios no Rio de Janeiro foi cometido por um policial – e isso segundo os registros das próprias polícias. Ninguém tem qualquer dúvida que a maioria dos mortos é negra – e é pobre.

Quando vai para as ruas nos protestos, o que a polícia reprime não é o que chama de “baderneiros” ou “vândalos”, mas a solidariedade. Ao bater nos corpos, sufocá-los com bombas de gás lacrimogêneo, o que querem é controlar os corpos, castigá-los porque em vez de ficarem trancados em casa coçando a barriga foram às ruas lutar pelo coletivo. Como assim você luta pelo outro e não apenas por si mesmo? Como você ousa ser solidário se a regra do neoliberalismo é cuidar apenas de si e dos seus?

Resistir ao medo e se juntar para criar futuro é o ato primeiro de resistência. Se nos encarcerarmos em casa, como o governo quer, armados também, como o governo quer, atirando uns nos outros, como o governo quer, a guerra continuará sendo ampliada, porque só assim os perversos nos mantêm sob controle e se mantêm no poder. Se contarmos apenas como um não podemos nada. Temos que ser um+ um+ um. E então poderemos muito.

A arte é também um instrumento poderoso. Não foi por outro motivo que ela foi tachada de “pornográfica” e “pedófila” pelas milícias da internet nos últimos anos. Não é por outro motivo que o bolsonarismo investe contra a lei Rouanet e desmonta os mecanismos culturais. A arte não é firula. Ela tira as pessoas do lugar. Ela faz pensar. Ela questiona o poder. E ela junta os diferentes.

Precisamos fazer arte. Mais uma vez, vou indicar aqui o livro da Pussy Riot Nadya Tolokonikova (Pussy Riotum guia punk para o ativismo político, Ubu Editora, 2019). A arte é um ato ao alcance de todos nós. O maior golpe contra o Governo do déspota Vladimir Putin veio de um bando de garotas que não sabe nem cantar nem tocar direito, mas fazem arte tocando e cantando o ridículo dos perversos.

Rir. Precisamos rir. Rir junto com o outro, não rir do desespero do outro. É o perverso que gosta de rir sozinho, é o perverso que goza da dor do outro, como faz Bolsonaro, como riram os soldados que deram 80 tiros no carro da família que ia para um chá de bebê. O deles não é riso, é esgar. Já o riso junto com o outro tem uma enorme potência.

Vamos rir juntos dos perversos que nos governam. Vamos responder ao seu ódio com riso. Vamos responder à tentativa de controle dos nossos corpos exercendo a autonomia com os nossos corpos. Vamos libertar as palavras fazendo poesia. Como escrevi tantas vezes aqui: vamos rir por desaforo. E amar livremente.

Rir despudoradamente diante de suas metralhadoras de perdigotos. O ódio não é para nós, o ódio é para os fracos. Vamos afrontá-los denunciando o ridículo do que são. Vamos praticar a desobediência às regras que não criamos. Temos que desobedecer a esse desgoverno. É assim que se quebra o jugo dos perversos. Levando-os suficientemente a sério para não levá-los a sério.

E temos que começar a imaginar o futuro. É assim que o futuro começa, sendo imaginado. Ninguém consegue viver num presente sem futuro. Mas é impossível controlar quem é capaz de imaginar depois que já começou a imaginar. A imaginação é a melhor companheira do riso.

Sim, ninguém solta a mão de ninguém. Mas não vamos ficar segurando as mãos uns dos outros paralisados e em pânico. Vamos rir e criar futuro. Juntos. Lembrem-se que “a alegria é a prova dos nove”. Nos cem dias que já dura o domínio oficial dos perversos, foi o Carnaval quem mais desafiou o exercício autoritário do poder. Pela alegria, pela sátira, pelo riso, pelos corpos nas ruas.

Não há lei que nos obrigue a obedecer a um Governo de perversos. Desobedeçam aos senhores do ódio. Os próximos cem dias – e todos os outros que virão – precisam voltar a nos pertencer.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

Líder caminhoneiro: “Apoiamos Bolsonaro, mas, se necessário, serei o primeiro a chamar a paralisação”

Decisão de presidente de forçar Petrobras a revogar aumento do diesel agrada Wallace Ladim, que preside cooperativa. Intervenção fez ações da estatal despencarem. Presidente discutirá tema na terça

A notícia de que a Petrobras aumentaria em 5,7% o preço do óleo diesel a partir desta sexta-feira pegou de surpresa o caminhoneiro Wallace Ladim, conhecido como Chorão. Afinal, para o presidente da Cooperativa dos Transportadores Autônomos do Brasil (BrasCoop), um dos líderes da histórica greve dos caminhoneiros em 2018, era um desfecho que não condizia com os meses de conversas da categoria com os integrantes do Governo Bolsonaro para evitar novos reajustes. O alívio, ainda que com tom de advertência, só veio quando Jair Bolsonaro, ciente da insatisfação, resolveu pressionar a Petrobras e, em poucas horas, determinou o veto ao aumento do combustível.

“Estamos sufocados e vem essa questão de aumento de diesel e gera esse transtorno. Continuamos apoiando o presidente porque ele está em prol da categoria, mas, se em algum momento formos prejudicados e se for necessário uma paralisação, eu serei o primeiro a chamar”, disse Ladim. Ele elogiou a conduta de Bolsonaro que, em seus cálculos, é apoiado por 90% dos caminhoneiros. A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) também elogiou a decisão de deter o aumento.

A forte interferência de Bolsonaro na política de preços da estatal —uma prática que nega a própria proposta econômica liberal do Governo— e a percepção de que o presidente está “refém” dos caminhoneiros  assustou o mercado financeiro. As ações da petroleira despencaram até 8%, fazendo a companhia perder 32 bilhões de reais em valor de mercado.

Após o tombo da Petrobras, Bolsonaro disse que não será intervencionista e tampouco adotará práticas do passado —como a de controle de preços da gestão de Dilma Russeff—, mas quer detalhes de como é calculado o reajuste dos combustíveis e qual o custo de produção. “Terça-feira convoquei todos da Petrobras para me esclarecer por que 5,7% de reajuste, quando a inflação desse ano está projetada para menos de 5%”, afirmou o presidente, que voltou a repetir que não entende de economia.

Os caminhoneiros preparam o terreno

Os caminhoneiros, que foram apoiados por Bolsonaro durante a paralisação de 2018, há tempos se preparam para esse novo round com a direção da Petrobras. Antes mesmo da posse do presidente, Ladim afirma já ter começado junto a outras lideranças o contato com membros do Governo para articular uma nova medida para proteger os caminhoneiros da volatilidade dos preços da Petrobras, que, desde meados de 2017, acompanham as oscilações do mercado externo. Para encerrar os protestos do ano passado – que levou a renúncia do então presidente da estatal, Pedro Parente- o Governo de Michel Temer resolveu subsidiar o combustível, mas o programa durou só até o dia 31 de dezembro.

“Há um mês, estive em uma reunião direta com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, onde fomos falar sobre o preço do diesel e também do piso mínimo do frete que não está sendo fiscalizado. Do jeito que estava subindo o combustível todo dia, estávamos igual ou até pior que na época anterior à greve”, diz. A categoria pediu então uma ação do Governo, sugerindo inclusive que as elevações fossem mensais. Como resposta, tiveram um novo anúncio da petroleira no fim do março, que decidiu que os preços seriam reajustados, no mínimo, a cada 15 dias. “A situação não foi resolvida, mas eles sinalizaram que estavam tentando resolver o problema. Nós nunca tivemos um diálogo desse em nenhum outro governo, essa porta aberta”.

Ladim afirma ter escutado pessoalmente do ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, que Bolsonaro olharia a questão com carinho. “O Governo sabe que a gente está insatisfeito e que, se não houver um respaldo, há riscos”, pondera. Além da alta do diesel, os caminhoneiros reclamam que as empresas têm descumprido o pagamento do valor mínimo e cobram uma fiscalização mais ostensiva da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Entre os especialistas do setor, há um debate se a fórmula atual da Petrobras, sem nenhum anteparo, é a mais acertada para o Brasil. Há os que defendem que, no lugar da flutuação pura de preços, o valor dos combustíveis não fique muito discrepante do mundial por muito tempo, mas que os reajustes sejam feitos em patamares e com previsibilidade dos critérios.

Bolsonaro diz que pediu para segurar o diesel

O presidente Jair Bolsonaro admitiu, nesta sexta-feira, 12, que determinou a suspensão do reajuste de 5,7% no preço do diesel, anunciado na quinta-feira pela Petrobras. O novo valor (o litro passaria de R$ 2,1432 para R$ 2,2662) começaria a ser cobrado nesta sexta, mas vai ficar suspenso até que os técnicos da estatal justifiquem ao presidente a necessidade do aumento.

“Não sou economista, já falei. Mas os entendidos afundaram o Brasil. E eu estou preocupado também com o transporte de carga no Brasil. Os caminhoneiros que movimentam as riquezas de norte a sul e de leste a oeste têm que ser tratados com o devido carinho. Nós queremos um preço justo para o óleo diesel”, afirmou o presidente.

Defesa de Gentili vai recorrer de condenação

Na quarta-feira (10), a Justiça Federal em São Paulo condenou o humorista Danilo Gentili a pena de seis meses e 28 dias de detenção pelo crime de injúria contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS). Rogério Cury, advogado de defesa do humorista, anunciou que ficou surpreso com a decisão e irá recorrer.

Cury sugere que a interpretação do caso abre um precedente perigoso para a liberdade de imprensa e de expressão. “Ainda não tivemos acesso à sentença para analisar os detalhes, mas tenho certeza que o Danilo deveria ser absolvido. Algo assim repercute mal e atinge a liberdade criativa dos humoristas e até mesmo da imprensa”, analisa o advogado.



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